coração-cometa

às vezes tenho a impressão de que vou viver para sempre. vou escrever um livro, viajar pra muito longe e olhar pro céu de algum lugar bem alto. certas vezes, eu confesso, perco a certeza, fico borocoxô e o dia parece desanimador diante do abismo que o segue.

e aí a gente se mete no exercício diário de compreender se perdemos ou se ganhamos os dias – e é verdade que a resposta depende do céu, dos cometas e das formigas.

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quando eu era criança eu tinha certeza que as estrelas eram olhos de pessoas que não viviam mais na terra. e elas ficavam lá de cima olhando a gente, pensando nas coisas e andando com uma roupa branca em um gramado. elas faziam buracos no chão, colocavam o olho lá e conseguiam enxergar a gente. acho que eu me sentia menos sozinha assim.

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ainda espero que as estrelas sejam pessoas.
quem sabe desse jeito eu não perca o desejo de tentar olhar o céu mais de perto, assim de um lugar distante e alto. me sentindo formiga com esse coração-cometa.

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beco do (r)ato

acordei tonta. a cabeça doía junto com meus olhos semicerrados. a memória falha lembrava apenas de marcos inconclusos da noite anterior – olhos abertos e inundados em um diálogo longo, fluído e doloroso. palavras dispostas de modo à perfurar, demarcar um lugar-chave comum em minha jornada. nada, nada de inteiramente novo, o que tornava aquilo tudo em tropeço, reincidência, lugar comum. 

 – não chora. disse, de repente, um sujeito de carnaval encostando as mãos no meu rosto. e desapareceu na multidão inesperadamente. se perdeu em meios aos outros montes que compunham a arquitetura daquele beco estreito enquanto entornavam pés destilados pelo chão. 

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BOTAFOGO, sexta-feira às 23h54

duas mesas de bar juntas e oito cadeiras – seis estavam ocupadas. sentei na direção oposta, ele me olhou nos olhos e disse sorrindo: -eu preciso te mostrar uma coisa que você vai gostar muito. li e lembrei de você, bluebird – agora só vou te chamar assim!

curiosa, logo ele me disse que se tratava de uma poesia do bukowski – arregalei os olhos como quem compreende alguma coisa e disse: “ah, o maldito!”

li, olhei pra ele, ele sorriu, eu sorri de volta, reli e ainda com os olhos baixos sorri mais uma vez. 

“bluebird”

ele sabe. ele sabe como poucos que há em mim um pássaro azul, que dormimos juntos e mantemos bem nossos segredos.

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“Querido Hubert,
Você é um peixe de águas profundas. Cego e luminoso. Nada em águas turbulentas com a raiva da era moderna, mas com a frágil poesia de outro tempo. Nunca te esquecerei. Dez anos de silêncio e dez segundos de ruído. Reconheço o absurdo da vida. Não há outra coisa que não matar nesta vida que o inimigo interior. O duplo do duro núcleo. Dominá-lo é uma arte. Até que pontos somos artistas?”

“Eu matei minha mãe”, Xavier Dolan

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lua em aquário

era a terra. por fim, era a terra a responsável por esse impulso ao peso e sua beleza. apostei na confluência cósmica do signo. na estreita e natural relação com gaia. bolei explicações místicas, astrológicas, cabalísticas e, por fim… e por fim era a terra! esse solo fértil que me enche de potência e suor.

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there is a light that never goes out

7h50. Como de costume logo que acordei deparei-me com as mensagens enviadas de madrugada na caixa de entrada do chat. Não haveria aula aquela manhã, de modo que estendi relaxadamente o corpo como quem é confortavelmente entorpecida. Lenta, levantei, tomei os remédios e o café, fumei o primeiro cigarro do dia e banhei-me em uma desproporcional e incoerente água quente. Fazia calor lá fora.

A primeira tarefa do dia constituía-se pela escolha de uma nova leitura, o que implica, essencialmente, em uma atenção sensível aos próprios humores, desejos, vibrações. É uma escolha difícil e definitiva, pois torna-se uma aceitação consciente e ativa de uma bem provável operação sentimental e intelectual que pode (ou não) te transformar indefinidamente. Passei os olhos pela estante decidida por encontrar um romance. No dia anterior havia terminado São Bernardo e logo me deparei com outro de Graciliano, dessa vez era Angústia. Queria um texto novo, esbarrei em Hesse. Rosshalde que comprei a R$3 em um brechó à céu aberto no Largo do Machado. Não. Não são tempos de Hesse. Pulei. Foi quando me deparei com uma capa de um laranja estrondoso que revestia 629 páginas de uma biografia recente dos Smiths. The Smiths: A light that never goes out de Tony Fletcher. Era ele, mas hesitei. Um livro grande, apesar de não muito pesado. Temi sua inadequação às proporções da minha bolsa ou talvez aos espaços de minha leitura – que envolviam ônibus, metrôs e filas. Hesitei, mas segui a intuição. Sai de casa com fones nos ouvidos, o livro na bolsa e o coração aberto –  e agora juvenil – para as linhas que me aguardavam.

O dia de sol evidenciava minha satisfação matutina. Resolvi ir a universidade, queria ler arduamente. Entre algumas faixas musicais me dediquei prazerosamente à decifração dos muitos signos que preenchiam aquele papel off-white.  Pensava também sobre as cópias e mais cópias que deveria ler para as disciplinas do curso. Estava ensolarada, o que significava, pois, disposta a ler todas as linhas do mundo ou, pelo menos, todos os desejos pessoais de leitura, o que, afinal, é quase a mesma coisa.

Além do impulso à leitura, um dia bonito daqueles. Era quinta-feira, dia de epígrafe. Foi assim, depois de todas as impressões sobre aquele recente 30 de outubro que me encontrei com O Anti-Newton, texto curto e potente e, assim como os outros textos da autora, videntes, precisos e um tanto alegóricos.

Descobri que estava louca (ou talvez feliz), (ou talvez só alegre). Não sei, louca comportava melhor os impulsos de euforia silenciosa daquele meu estado de espírito. Por todos os lados, entre as linhas de Fletcher e as linhas invisíveis que do sol chegavam até mim, pensava como louca na alegria  suave e jovial que ela me causava. Repeti sorridente o que as linhas de O Anti-Newton, de um jeito ou de outro, decifraram de mim.

“- deixa eu beijar todos os meus beijos guardados na sua boca. são apenas beijos e não têm  a gravidade da gravidade!”

Não riram, nem murmuraram ao redor. Minha loucura era silenciosa e gentil, não derrubava papéis e pessoas pelo chão.

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